Crônica Jurídica
Aquele juiz era um verdadeiro bon vivant. Aproveitava a comodidade do home office e raramente aparecia no Fórum. Para ser sincero, ninguém sabia ao certo se ele existia de fato — jamais fora visto por alguém. De nome pomposo, sua excelência preferia viajar pelo mundo, despachando processos e conversando com seu escrevente a qualquer hora e em qualquer lugar.
Até que, em um dia de fúria, um dos escreventes, tomado pelo espírito da vingança, passou a enviar centenas de processos ao Ministério Público, sem qualquer necessidade. Misturava ações de cobrança com despejos, casos que exigiam intervenção do parquet com outros que não precisavam, tornando a triagem um verdadeiro caos.
Foi então que uma nova promotora substituta, já com os nervos à flor da pele e em plena menopausa, decidiu responder de forma peculiar. Em suas cotas, citava Machado de Assis: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo ou uma revolução; alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies.” E completava, com ironia própria: “Espécie burra, neste caso, como vossa excelência, que desconhece o Código de Processo Civil, especialmente o artigo 178. Devolva-se este expediente a sua majestade, o sabiá.”
O episódio ganhou fama e, curiosamente, transformou-se em uma história de amor. Meses depois, juiz e promotora se encontraram em Las Vegas e se casaram, tendo como celebrante ninguém menos que um sósia de Elvis Presley.
