Crônica Jurídica

02/10/2026
Autor: Renata Soltanovitch
Suprema arrogância
Crônica jurídica

Diz o ditado: “o exemplo vem de cima”. E, neste caso, a máxima se cumpriu ao pé da letra. O juiz, famoso por sua rigidez moral e apego aos bons costumes, pediu transferência para uma pequena comarca. Ao chegar, tomou uma decisão drástica: mandou fechar prostíbulos, motéis, casas de show e até os botecos. Afinal, manda quem pode.


O prefeito entrou em desespero. A cidade vivia do entretenimento e dependia dessa receita para sobreviver. Comerciantes e eleitores exigiam uma resposta imediata.


Depois de muita investigação para tentar convencer o magistrado a suavizar sua postura, descobriu-se que o motivo era pessoal. O juiz, após reler Dom Casmurro, passou a acreditar que o filho que deixara na capital com a ex-mulher não era seu. Mais ainda: soube que ela era conhecida como Belle de Jour. Indignado, decidiu recomeçar em outra cidade, justificando sua escolha com uma frase de Machado de Assis: “não se impede o crescimento de uma planta senão arrancando-lhe as raízes”.


O prefeito, pressionado, acabou transformando a cidade em um lugar fantasma, onde os antigos estabelecimentos funcionavam às escondidas, na clandestinidade. Já o juiz, acreditando que sua decisão estava cumprida, se deu por satisfeito. Não imaginou, porém, que o marketing dos comerciantes locais transformaria a “cidade fantasma” em atração turística: visitantes vinham em busca das supostas assombrações.


E foi assim que percebeu que sua arrogância se tornara palco de sátira, sendo lembrado não como o juiz que limpou a cidade, mas como o fantasma que a encheu de vida. No fim, quem tentou matar o prazer acabou criando o turismo — e virou a principal atração daquilo que mais desprezava.