Artigo
Naquela manhã de sábado, a doutora advogada acordou com a estranha sensação de estar vivendo dentro de uma crônica jurídica, típica daquela escrita por quem gosta de ler jurisprudência dos tribunais. Afinal, quem diria que ela, com sua experiência toda, seria, na verdade, vítima de um falsário, que estava atrás de informações privilegiadas de sua cliente, dona de uma marca famosa de produtos de beleza.
A doutora, além de exercer a advocacia, tinha o hábito de experimentar os produtos de sua cliente antes que fossem lançados no mercado. Possuía um olhar apurado para a beleza e para a qualidade, fruto não apenas de sua sensibilidade, mas também de cursos de estética realizados no passado. Durante anos, trabalhou ao lado de uma grande amiga — dentista e biomédica, especialista em harmonização facial — que, apesar de carregar no rosto uma assimetria causada por um tiro na adolescência, tornou-se referência na área. Quantas saudades daquele tempo. Graças à amiga e àquele trabalho, conseguiu pagar sua tão sonhada faculdade de Direito e, posteriormente, se especializar em Direito de Entretenimento na Escola Superior da Advocacia, com foco em marcas e patentes, até por conta do trabalho que a amiga fazia no consultório. Aquilo sim foi uma grande experiência e lhe rendeu conhecimentos sobre produtos.
Mas um dia a doutora advogada se apaixonou por outro colega advogado, daqueles que faziam qualquer um assinar contratos sem ler as cláusulas. Charmoso, influenciador digital, tinha tantos seguidores que estava mais para modelo do que para advogado, vendendo mentorias sobre marketing na advocacia.
A doutora advogada mal sabia, mas ele era, na verdade, um captador de clientes pelas redes sociais e trabalhava em um escritório que prestava serviços advocatícios justamente concorrente da marca de sua principal cliente.
Como a doutora advogada não tinha escritório e, portanto, trabalhava em casa, todo o material de trabalho, registros de marca e de patente estavam na sala, no cantinho que ela havia feito para seu home office, sem se preocupar com o sigilo profissional. Nada ficava trancado. Uma noite, depois de embebedá-la com o melhor vinho que podia pagar, começou o doutor advogado a vasculhar todo o material que ela possuía.
O apartamento da doutora advogada era um verdadeiro spa. Havia máscaras faciais empilhadas junto com os livros jurídicos de Carlos Alberto Bittar, João da Gama Cerqueira, e entre outros que escrevia sobre concorrência desleal, além de caixas de esmalte com literatura de Dostoiévski e shampoos — muitos shampoos — espalhados por todos os cômodos da casa. O doutor advogado passou a noite inteira vasculhando cada canto, tentando não levantar suspeitas. Abriu gavetas, mexeu em porta-retratos, fingiu procurar cremes; na verdade, buscava algum documento que comprovasse a composição fiel daqueles novos produtos. O problema é que a advogada, um tanto desconfiada, escondia documentos com a mesma habilidade com que escondia rugas — ninguém jamais encontrava.
Exausto e sem pistas, o doutor advogado acreditou que o segredo não estivesse em gavetas, mas na própria lógica da doutora advogada, ou seja, em algum potinho de creme.
Depois de revirar tudo e nada encontrar, foi embora, sem olhar para trás. A advogada, satisfeita por ter filmado todo o movimento dele durante a noite, mudou o segredo da porta de seu apartamento e levou as imagens para a Delegacia da Mulher, para depois protocolar uma representação na OAB com pedido de suspensão preventiva contra o doutor advogado por conduta incompatível.
Na saída da delegacia, a doutora advogada respirou aliviada. Não pelo fim do romance — que já lhe parecia mais um contrato oneroso do que uma paixão — mas pela certeza de que, ao menos, sua reputação jurídica continuava intacta e que o tal advogado seria suspenso dos quadros da OAB.
Dias depois, ao abrir uma das gavetas, encontrou o bilhete do doutor advogado esquecido entre um batom e um acórdão do TJ sobre uso indevido de marca. Nele, além da despedida, havia uma frase curiosa parafraseando Machado de Assis: “A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros.”
Sorriu. Afinal, não era todo dia que uma mulher conseguia transformar a própria rotina de beleza em sigilo profissional. E pensou, com a ironia de quem gosta de ler Machado de Assis: “Tudo deve se esperar dos homens, e particularmente dos namorados.”
