Crônica Jurídica

04/10/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O plantonista e o boteco
Crônica jurídica

O senhor oficial de justiça estava no limite: já não suportava mais a rotina do judiciário. Busca e apreensão, citação por hora certa, constatação... tudo parecia um eterno carrossel de burocracia. Contava os dias para a aposentadoria.


Certo dia, exausto de tentar citar um devedor de pensão alimentícia, registrou que o sujeito estava em “Lins” — não a cidade do interior, mas o famoso Lugar Incerto e Não Sabido. A mãe do menor, indignada, correu ao cartório. O diretor, ainda mais revoltado, retrucou: “Mas eu conheço esse sujeito! Ele não está em Lins coisa nenhuma, está sempre no boteco da esquina, tomando corotinho e jogando sinuca.”


Munido dessa informação nada oficial, o juiz, em despacho de fúria, determinou que o oficial de justiça realizasse uma busca mais atenta.


E lá foi o servidor de plantão e paciência esgotada, até o boteco. Encontrou o devedor exatamente como descrito: taco de sinuca numa mão, copo na outra. Entregou-lhe a citação e ainda asseverou com uma frase de Machado de Assis: “Uma pinga só é poético nos livros”. E o devedor, para não deixar o oficial sem resposta, disse que escreveria até um compêndio.