Crônica Jurídica

18/10/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O oficial de justiça cantor
Crônica jurídica

O tal oficial era criatura de um humor incorruptível. Embora trouxesse na algibeira a crueza dos mandados citatórios, as ordens de busca e apreensão ou os severos autos de constatação, possuía uma simpatia diplomática, capaz de fazer com que os réus o recebesse com gentilezas. Além do mais, possuia uma voz encantadora. Nas noites, dedilhava seu violão em uma pizzaria local, o que lhe rendia, além de um honesto cachê, uma farta colheita de amigos e seguidores no Instagram.


Era o homem de confiança dos magistrados daquela Comarca.


Bom observador, o oficial utilizava-se das melodias para atenuar a rigidez do direito escrito. Quando a realidade exigia uma discrição que a crônica jurídica não permitia formalizar — pois bem sabemos que ao oficial não cabe julgar —, ele socorria-se da música. O refrão era o seu relatório secreto.


Ao citar uma ré por danos morais decorrentes de bisbilhotice, gravou à margem dos autos os versos que Adoniran Barbosa e Elis Regina imortalizaram: “De tanto levar frechada do teu olhar, meu peito até parece sabe o que?”. Noutra feita, ao perseguir um réu evasivo em processo de assédio, registrou a letra de Rita Lee: “Meu bem, você me dá água na boca”. Quando a astúcia do citando o obrigou a realizar a diligência por hora certa, o oficial — quase um filósofo — invocou Zeca Baleiro: “Ao arrepio da lei, comecei ir ao cinema ver faroeste sem idade para entrar no meu Nordeste”. Os juízes, homens lidos, decifravam aquelas notas como quem decifra a alma humana, facilitando o fundamento da sentença.


Até que sobreveio o dia em que o magistrado lhe ordenou a avaliação de um imóvel. O oficial foi, viu e, na hora de verter a miséria, preferiu a poesia de Vinícius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada; ninguém podia entrar nela, não, porque na casa não tinha chão”. O juiz, ao ler a certidão, fechou os olhos e compreendeu o que não precisavam ver.


Mas o destino tem seus caprichos. A fama daquele funcionário atravessou as fronteiras. A voz, que antes abrandava o rigor da lei, chegou aos ouvidos de um cantor de grande renome, que logo o convidou para cruzarem os palcos do país em dupla.


O oficial não vacilou: assinou a sua própria exoneração, despediu-se e trocou o Tribunal pela fama. Todavia, não abandonou o passado. Aquelas mesmas experiências que outrora testemunhara nos mandados converteram-se em matéria-prima para as suas canções. O público aplaudia o ritmo sem desconfiar que cada estrofe nascera de uma penhora ou de um despejo. Afinal, compreendera o que o mestre Machado de Assis citava em seu livro “quem vê as barbas do vizinho arder põe as suas de molho”.


E assim, entre o foro e o aplauso, transcorreu a sua nova vida. O que prova que a dor humana, quando bem cantada, serve ao menos para entretenimento.