Crônica Jurídica
A faculdade de Medicina daquela pequena comarca era referência em determinados tratamentos.
Seus alunos eram tão bem preparados que o atendimento à população carente adquiria também um caráter altruístico.
Um dia, o diretor da faculdade procurou o magistrado com um pedido: que, havendo prisioneiros mortos cujos corpos não fossem reivindicados pelas famílias, eles fossem entregues à faculdade para estudos anatômicos.
Houve uma reunião com o prefeito, o promotor e o chefe de polícia, e assim ficou estabelecido.
Mas o magistrado foi além: aqueles prisioneiros que concordassem em dispor de seus corpos para estudos após a morte teriam suas penas reduzidas ainda em vida.
A verdade é que os alunos nunca foram tão bem preparados em conhecimento e anatomia humana.
E, como diria Machado de Assis: “Dize-me como moras, dir-te-ei quem és”.
Naquela comarca, até a morte tinha utilidade pública. E a Justiça, finalmente, encontrara uma maneira de reduzir penas sem precisar libertar ninguém.
