Crônica Jurídica
Há dias em que levantar da cama parece uma batalha perdida. Naquela segunda-feira fria, o magistrado sentia exatamente isso. O corpo inteiro doía, cobrando meses de sedentarismo, mas o dever o chamava. A comarca era pequena, e sua ausência no Fórum alimentaria fofocas desnecessárias.
Após o banho, passou na padaria para um café reforçado e, ao chegar, praticamente acendeu as luzes do Tribunal: ninguém havia chegado ainda. Ligou o sistema do Eproc e iniciou a árdua tarefa de redigir as sentenças acumuladas.
Não percebeu, porém, que a Inteligência Artificial havia sido vítima de um ataque hacker no fim de semana. Em vez de textos jurídicos, surgiam poemas, letras de músicas e frases literárias. Uma a uma, as sentenças eram publicadas, recheadas de erros grotescos e alucinações.
Cinco dias se passaram até que a Corregedoria fosse acionada. Envergonhado, o juiz atribuiu a culpa a terceiros. Afastado provisoriamente por estresse, saiu de férias — férias que se tornariam definitivas. Sua carreira chegava ao fim.
E como diria Machado de Assis: “As despedidas mais longas são as mais difíceis de suportar.”
