Crônica Jurídica
A doutora advogada entristeceu-se ao receber a visita de um casal de clientes que, após mais de cinquenta anos juntos, desejava se divorciar. Ouviu atentamente a história e percebeu que os conflitos não passavam de pequenos ajustes que, com paciência, poderiam devolver a harmonia ao lar.
O casal era responsável pela guarda de três netos adolescentes, órfãos de um acidente de veículo. Diante disso, a advogada explicou que precisaria protocolar o divórcio no Fórum e, em seguida, levou o caso ao juiz. Expôs a situação e argumentou que, se houvesse apoio da magistratura, aquela família poderia se restabelecer.
O juiz, homem de princípios e defensor da família, reconheceu a relevância da matéria e solicitou a participação do Ministério Público, já que havia menores envolvidos.
Mas o promotor, descrente da instituição familiar, solteiro e sem intenção de casar ou ter filhos, manifestou que o casal deveria se separar, citando Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Para ele, onde não houvesse amor, deveria haver apenas respeito e liberdade — cada um seguindo seu caminho.
Na sala, o silêncio pesou mais do que qualquer petição. O juiz, ao olhar para a advogada estarrecida com o parecer do parquet, percebeu que havia ali um inimigo da corte: alguém sem espírito de conciliação, sem espaço para o diálogo.
Com sensibilidade, o magistrado lembrou ao casal que os netos dependiam deles, que havia memórias ainda vivas e que o amor, embora cansado, não estava morto. Entre lágrimas e sorrisos tímidos, decidiram tentar novamente.
O inimigo da corte foi vencido pela esperança. Ao sair do Fórum, a advogada respirou aliviada: naquele dia, a justiça não apenas aplicou a lei, mas também salvou uma família. E, como diria Machado de Assis: “A paciência é a gazua do amor.”
