Crônica Jurídica
O doutor advogado, senhorio de vários apartamentos com vista para o mar (esta advogada que ora escreve também ama uma praia) — cenário perfeito para jovens surfistas, viu sua fortuna derreter quando a praia foi interditada. Sem ondas, sem turistas e, principalmente, sem aluguel. Restou-lhe a crença de que despejar inquilinos inadimplentes, com pedidos urgentes de liminar (para ter o imóvel de volta na velocidade de um fast-food jurídico) e, claro, aquele toque melodramático: justiça gratuita, já que não havia mais renda.
O juiz, que conhecia o causídico pelo sobrenome estampado no próprio prédio onde ele era proprietário, não se deixou enganar. Afinal, quem posta fotos de vinhos e pratos dignos de guia Michelin (quem nunca?) não convence ninguém de que não pode pagar custas processuais — obrigação que deveria ser universal, sobretudo quando há condenação em verbas de sucumbência, diga-se de passagem.
Mas o magistrado não se contentou em apenas indeferir o pedido. Fez questão de anexar aos autos os prints das redes sociais do doutor advogado, exibindo seus jantares regados a rótulos caros e viagens internacionais. E concluiu, com a elegância de quem dá a última palavra: “Bastaria ao advogado reduzir suas visitas aos restaurantes sofisticados desta bela cidade litorânea para arcar com as custas judiciais.”
O despacho viralizou nas redes sociais, e o advogado, agora apelidado de “causídico gourmet”, respondeu aos risos alheios com ares de filósofo e frases de Machado de Assis: — “O dinheiro compra tudo, inclusive os bons vinhos.”
