Crônica Jurídica

22/05/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O glamour forense
Crônica jurídica

O doutor advogado já poderia se aposentar definitivamente. Sua situação financeira estava confortável, fruto de um planejamento cuidadoso. Teve bons clientes, foi respeitado pelos juízes e chamado pelo nome pelos serventuários. Era uma época de verdadeiro glamour forense. Protocolar petições pessoalmente no Fórum, sustentar oralmente diante dos magistrados e ainda encontrar colegas para um café durante o expediente era tão essencial quanto uma audiência de instrução.


Mas tudo isso deixou de existir. Já não há necessidade de juízes se deslocarem ao Fórum, seja para despachar com advogados, administrar cartórios ou interrogar testemunhas. Agora, tudo é virtual. A inteligência artificial realiza o trabalho, e o advogado tornou-se mero espectador. Até o balcão forense se transformou em uma tela. Não há mais encontros, nem desencontros. A profissão foi reduzida a uma atividade solitária, quase burocrática, em que o advogado dialoga mais com máquinas do que com pessoas. Seu colega mais próximo é a Alexa, ou qualquer outra plataforma que executa o serviço em segundos.


O Fórum e a Casa dos Advogados tornaram-se espaços vazios, sombras de um passado vibrante. A vida parece se extinguir dia após dia, enquanto a justiça se torna plena sem contato humano. Vence não quem argumenta melhor, mas quem dispõe da plataforma mais avançada.


E como diria Machado de Assis: “O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou lhes dá outro aspecto.”