Artigo
Ninguém mais daquela comarca aguentava aquele doutor advogado. Mal-educado, grosseiro, destratava todos os demais colegas. Sua arrogância era tamanha que, quando ele aparecia em algum evento da subseção, todos iam embora. O doutor achava graça e se divertia com isso. Fazia questão de tumultuar o ambiente.
Mas um dia, sua soberba ultrapassou qualquer limite de velocidade: ele atropelou um idoso e seu neto na rua e, em vez de prestar socorro, saiu em disparada.
Os transeuntes que ali estavam prestaram os primeiros socorros e denunciaram o advogado à TV local, que fez uma matéria que, impulsionada pela mídia e pelas redes sociais, repercutiu por toda a região.
O juiz, já cansado daquele advogado, decretou sua prisão, e o delegado, satisfeito com a decisão, fez questão de acompanhar pessoalmente sua equipe no cumprimento. Prerrogativas da OAB acionadas, o Presidente da Subseção — aliviado com a prisão — aproveitou o momento para aplicar uma medida cautelar de suspensão do exercício profissional.
Não era punição, dizia o presidente a quem quisesse ouvir. Era cuidado. Um gesto provisório, quase um suspiro administrativo, para proteger a dignidade da profissão e lembrar ao mundo que ali, naquela casa, a imagem da advocacia importa tanto quanto o ofício.
O fato é que os elementos dos autos — filmagens, depoimentos e a repercussão da mídia — somados à prisão preventiva decretada, formavam um quadro impossível de ignorar. A casa da advocacia, afinal, vive num curioso cruzamento: não é tribunal penal, mas também não pode fingir que o mundo lá fora não existe.
E assim, entre visitas à carceragem e sorrisos discretos dos colegas, a decisão foi tomada, pois “é preciso obedecer às necessidades da vida”, como diria Machado de Assis. Não para condenar de imediato — isso caberia ao longo do processo de exclusão do advogado dos quadros da instituição— mas para preservar a honra da profissão. A instituição tem esse dever moral de zelar pela idoneidade de quem carrega sua carteira e o certificado digital no bolso.
O advogado reclamou da falta efetiva de contraditório, mas quem honra a profissão sabe que, às vezes, a idoneidade precisa ser protegida antes que se perca de vez. E, no fim das contas, o próprio doutor não deu chance alguma quando resolveu atropelar o idoso e o neto — que só não ficaram mais gravemente feridos porque os transeuntes os levaram imediatamente ao hospital. Cada qual com sua urgência.
