Crônica Jurídica

22/09/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O canalha e a advogada
Crônica jurídica

O rapaz era um mulherengo de primeira: conquistava qualquer uma a qualquer preço. Depois de fazer a apaixonada gastar com ele, desaparecia sem deixar rastros. Mas um dia, naquela pequena comarca do interior, resolveu aplicar o mesmo golpe em uma jovem advogada. Esqueceu-se, porém, que ela poderia até não ser a mais vaidosa — mas burra não era.


A advogada, cansada de ser alvo das fofocas das amigas que nunca a convidavam para as festas, deixou-se encantar pelo rapaz. Precisava de um belo acompanhante para calar a boca das más-línguas. O golpista acreditava que ia se dar bem, mas não contava que ela já havia investigado sua vida e descoberto os inquéritos de estelionato amoroso que pesavam contra ele.


Com a ajuda da delegada da região, arquitetou o desfecho. Fingiu ingenuidade, deixou o rapaz acreditar que teria a chance de aplicar seu “toque final” e o levou a se declarar em público, durante uma grande festa de peão de boiadeiro. Com direito a filmagem, viralização nas redes sociais e tudo mais. Foi nesse momento que a advogada deu voz de prisão em flagrante ao meliante. Surpreso, ele tentou fugir, mas deixou cair o celular e sua verdadeira documentação.


Na delegacia, ainda tentou convencer a delegada com frases melosas: dizia que se sentia sozinho, que “solidão não se cura com aspirina”, como cantaria Zeca Baleiro, e que até um canalha precisa de afeto. A delegada riu e respondeu que nem se mandasse flores, como na música, seria solto.


E assim, a jovem advogada passou a ser respeitada na pequena cidade, conhecida como aquela que não apenas conhecia a lei — mas sabia usá-la com inteligência.