Crônica Jurídica

05/07/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O blogueiro advogado e suas petições
Crônica jurídica

Não havia qualquer ilicitude ou impedimento ético para que o advogado utilizasse suas próprias fotos como fundo das petições. Autointitulado blogueiro e reconhecido como o homem mais bonito da cidade — título que lhe rendeu até um prêmio da Prefeitura — ele explorava sua imagem de forma deliberada. A foto escolhida mostrava-o na tribuna, em sustentação oral, com a beca impecável, o cabelo bem aparado e um relógio de marca no pulso.


O efeito, porém, era cansativo: a leitura das peças tornava-se pesada, sem que houvesse motivo para que algum juiz proibisse tal prática. Até que, em certo dia, a inteligência artificial do Tribunal, responsável pela triagem dos processos, interpretou a imagem como um “prompt de alto risco”. O sistema imediatamente expediu ofício à OAB e ao Ministério Público, extinguiu a ação sob o fundamento de lide temerária e aplicou multa ao advogado e à parte assistida.


Indignado, o causídico foi pessoalmente ao gabinete do juiz. Este, ao reconhecê-lo pelas fotos, ouviu atentamente seus argumentos e respondeu com uma citação de Machado de Assis: “A beleza é como a bravura, vale mais se não a metem à cara dos outros.”


Constrangido, o advogado se desculpou e nunca mais voltou a usar sua própria imagem nas petições, lembrando-se sempre da lição daquele mesmo autor: “A sociedade tem leis e regras dignas de respeito.”