Artigo

01/03/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O advogado que se dane
Crônica jurídica

O doutor advogado estudou meses para aquele júri. Mapeou o perfil dos jurados para que seu cliente pegasse o menor número de anos possível pelo crime cometido. Ouviu previamente as testemunhas e conversou incontáveis vezes com a família do preso. Estava tudo pronto para aquele dia.


Seu novo assistente, recém-formado pelas Arcadas, havia preparado a mesa: pastas, água, caderno com o nome das testemunhas, desenho dos jurados, biografia da juíza e do promotor. Iniciados os trabalhos, a juíza começou a ler a acusação, mas, em razão da quantidade de processos e de ter delegado essa função à sua assistente, a leitura saiu confusa — nomes trocados, narrativas misturadas.


O promotor, distraído com o celular, nem percebeu. Até que o doutor advogado resolveu interromper. A juíza, furiosa, mandou que ele calasse a boca.


Mas o assistente, já percebendo a confusão instalada, respondeu à magistrada: “Cala a boca já morreu, e quem manda na minha vida sou eu”. A plateia veio abaixo de tanto rir, e a juíza, ainda mais irritada, deu voz de prisão ao assistente e ao advogado.


A Comissão de Prerrogativas foi acionada. A juíza, indignada, resolveu insultar também a OAB, como se jamais fosse precisar de um advogado. Encerrada a sessão, a repercussão foi imediata. A corregedoria abriu procedimento, a OAB publicou nota, e a juíza, que antes se vangloriava da própria autoridade, descobriu que poder sem prudência vira meme na certa.


O processo contra ela avançou, e a magistrada, ironicamente, precisou recorrer à mesma advocacia que desprezara. Bateu em portas, enviou mensagens, pediu indicações — e recebeu apenas silêncio. No fim, teve de contratar um advogado de outra comarca, que cobrou honorários no valor máximo permitido pela tabela da OAB.


E assim, entre procuração e contrato de honorários, a magistrada recordou uma frase de Machado de Assis: “As pessoas valem o que vale a afeição da gente”.