Crônica Jurídica
O doutor causídico era conhecido por sua postura exageradamente combativa e por sua deselegante falta de urbanidade, tanto com colegas adversos quanto com serventuários da justiça — incluindo magistrados e membros do parquet. Sua conduta, marcada por grosserias e desrespeito, acumulou desafetos até que, um dia, os ofendidos se reuniram. Munidos de provas, representaram-no perante o Tribunal de Ética da OAB, requerendo sua suspensão preventiva dos quadros da instituição.
Intimado para ser ouvido em sessão especial, o advogado, em vez de contratar um colega para defendê-lo, decidiu atuar em causa própria. Alegou perseguição política, sustentando que sua notoriedade nas redes sociais e sua carteira de clientes, que lhe rendia honorários vultosos, incomodavam seus opositores. Encerrando sua defesa, citou Primo Levi: "Existem monstros, mas são poucos em número para serem realmente perigosos. Mais perigosos são os homens comuns, os funcionários prontos para acreditar e agir sem fazer perguntas."
O que ele não sabia é que o presidente da Turma Disciplinar era um estudioso da literatura, especialmente dos textos sobre o Holocausto. Após colher os votos dos relatores, o presidente declarou em voz firme: "Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida" (Viktor Frankl).
E prosseguiu: se o doutor advogado escolheu a ausência de urbanidade como se estivesse em um ringue, exagerando em seu comportamento como se estivesse em um palco e desestabilizando o equilíbrio da justiça, não restava alternativa senão acolher o pedido de suspensão preventiva. A decisão, por unanimidade, foi então proclamada como seu fosse uma poesia para os ouvidos dos ofendidos.
