Artigo

09/01/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O advogado e o trabalho de Sísifo
Crônica jurídica

Cansado de longos recursos, o doutor advogado finalmente tinha em mãos o acórdão transitado em julgado. Contratou uma perita contábil e deu início ao cumprimento de sentença. O crédito de seu cliente era expressivo, e os honorários — contratados e sucumbenciais — prometiam ser igualmente generosos.


Mas o doutor advogado esqueceu que o devedor contumaz não teme sentença, não respeita o Judiciário e não se preocupa com o nome no Serasa. Após inúmeras buscas infrutíferas, requereu o bloqueio do passaporte e do cartão de crédito do devedor, única forma de forçá-lo a pagar, já que vivia entre Paris e Suíça, viajando de trem com documentos e cartões incólumes ao alcance da Justiça.


O pedido foi indeferido. O advogado despachou com o juiz, citou o “trabalho de Sísifo”, mas a decisão foi mantida pelos próprios fundamentos — o que apenas o leitor atento sabe o quanto significa.


Sem desistir, preparou o agravo de instrumento. Porém, ao se deparar com o recesso forense, lembrou-se da frase de Albert Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Decidiu protocolar mesmo assim e descer ao litoral, pois, como dizia Fernando Pessoa, “O mar é a religião da natureza” e talvez o verdadeiro cumprimento de sentença seja aprender a descansar.