Crônica Jurídica

04/07/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O advogado e o meme esclarecedor
Crônica jurídica

O doutor advogado era conhecido naquela comarca por suas citações estoicas e pelo humor refinado. Todos o respeitavam — colegas, servidores e até magistrados. Sua presença em eventos da subseção lotava o auditório, atraindo advogados até das cidades vizinhas.


Um dia, porém, foi surpreendido pela troca dos magistrados. Entre os novos, havia um tão mal-humorado que se recusava a receber advogados, delegando à inteligência artificial do tribunal a leitura e o julgamento dos processos — sozinha, sem qualquer supervisão humana.


Foi então que, brincando de forma séria, o ilustre causídico decidiu incluir “memes” na petição inicial de uma ação com diversos autores contra um fornecedor. Queria demonstrar, com ironia e clareza, que o descaso do fornecedor não era mero aborrecimento ou perda de tempo útil, mas verdadeiro desrespeito ao consumidor.


O julgador, ao perceber que sua IA não conseguia interpretar a petição inicial, irritou-se e oficiou a OAB, acusando o advogado de “prejudicar por culpa grave o interesse confiado ao seu patrocínio” e de promover lide predatória.


Foi então que a comarca inteira percebeu: o gigante fornecedor, ao notar que o consumidor podia ser desprezado, aproveitou-se para abusar de seu direito — e o humor do advogado revelou, mais uma vez, a seriedade da injustiça e como diria Machado de Assis: “Os homens sérios têm preconceitos extravagantes”.