Crônica Jurídica

13/03/2026
Autor: Renata Soltanovitch
O advogado e a gravata de bolinha
Crônica jurídica

O advogado, dedicado e meticuloso, preparou-se para a sustentação oral. Embora o julgamento fosse virtual, organizou o ambiente como se estivesse no tribunal. Acostumado ao home office, ajeitou o quarto que servia de escritório com cuidado: a pasta do processo ao alcance da mão, a caneta pronta para anotações, o copo de água ao lado. Vestiu a beca e aguardou… por muito tempo.


A gravata, apertada e incômoda, começou a sufocá-lo, ainda mais porque o pescoço estava sensível após um corte feito durante a barba. Decidiu tirá-la, certo de que teria tempo para recolocá-la antes de ser chamado. Afinal, diante dos magistrados, a aparência deveria ser impecável.


Mas o chamado veio de repente. Num lapso, esqueceu-se de pôr novamente a gravata. O relator, sem demora, já lhe dirigia uma reprimenda. Ao levantar-se para procurar a gravata — que misteriosamente havia caído no chão — revelou-se um detalhe inesperado: o advogado estava de short azul com bolinhas brancas. Não era feio, apenas confortável para quem passara horas sentado diante do computador.


A cena, porém, causou confusão. O relator interpretou como desrespeito e suspendeu o julgamento para data incerta. O advogado, constrangido, pensava em como explicaria aquilo ao cliente. Restava torcer para que ninguém tivesse gravado a sessão, transformando o episódio em caricatura digital. Como lembraria Machado de Assis: “Há duas cadeiras do representante da nação: uma no parlamento, outra na opinião pública.”


E na cadeira da opinião pública, o advogado nunca encontra justiça — só ironia. Afinal, anedota digital não resolve problema, apenas vira crônica. E se ela existiu eu não sei, mas rendeu um bom texto ou não.