Artigo
Dizem que a vida é feita de coincidências. Ainda que muitos não acreditem em bruxas, o fato é que elas existem. Foi pelas redes sociais que o jovem doutor, recém-formado, conquistou seu primeiro cliente.
Feliz da vida, marcou o encontro no coworking da Casa do Advogado da subseção em que estava inscrito. Preparou-se com elegância: terno alinhado, camisa bem passada, sapatos engraxados, relógio comprado no camelô, caneta de marca falsificada e uma pasta elegante.
Após as apresentações de praxe, o cliente perguntou se a conversa seria sigilosa. O advogado, demonstrando conhecimento técnico, citou o artigo do Código de Ética que garante o sigilo profissional. Foi então que veio a surpresa: o cliente era, na verdade, um falsário. Passando-se por advogado, aplicara golpes milionários na cidade vizinha. Chegava a inventar audiências, capturar fotos e vozes, e assim multiplicava suas vítimas. Sabia que estava sendo investigado e queria contratar o jovem doutor para sua defesa.
O advogado pensou em vingança, que viria na forma de pomposos honorários. Mas, diante das inúmeras ações contra o falso colega, decidiu não atuar no caso. Não poderia quebrar o sigilo da reunião, mas foi para casa triste, certo de que havia tomado a decisão correta. Como diria Machado de Assis: “Que o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo à força e ao bel-prazer, vá também; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a forma e cumpra as leis sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão.” E preferiu dormir com a consciência tranquila.
