Crônica Jurídica

20/09/2026
Autor: Renata Soltanovitch
Na forma da lei
Crônica jurídica

Tão logo o jovem juiz foi nomeado para assumir aquela pequena Comarca, encantou-se com sua própria figura máxima. Ele, o padre, o delegado e o promotor eram as autoridades máximas do lugar. Nem mesmo o prefeito ou os vereadores gozavam de tanto respeito.


Com o tempo, sua vida foi ficando monótona: não podia se ausentar da cidade, pois não havia substituto. Ir ao mercado, ao restaurante ou até mesmo à academia tornava-se um desafio, já que todos o reconheciam. A sensação de sufoco crescia, e sua liberdade parecia ter sido condenada à prisão em regime semiaberto.


Limitado ao Fórum e às férias — estas últimas aguardadas como criança em época escolar —, o juiz passou a ser conhecido como “Na forma da lei”, pois era assim que determinava todas as suas decisões. E, em meio ao rigorismo, constatou a verdade descrita por José de Alencar: “O prazer e o sofrimento não passam de um contraste; em luta perpétua e contínua, eles se acrisolam um no outro e se depuram; não há homem verdadeiramente feliz senão aquele que já conheceu a desgraça.”


E assim seguiu sua rotina monótona, até perceber que poderia utilizar a literatura como forma de escapar da realidade. Com um pseudônimo feminino, passou a escrever romances e contos, tornando-se um verdadeiro best-seller.


No fim das contas, descobriu que a lei lhe dava poder, mas a ficção lhe dava liberdade.