Crônica Jurídica

18/10/2026
Autor: Renata Soltanovitch
Expectativa de poder
Crônica jurídica

O jovem magistrado assumiu a comarca revestido de todas as crenças próprias da investidura. Sentia-se depositário de uma autoridade quase absoluta, dessas que os livros de direito sugerem e a vida se encarrega de desmentir.


Convencera-se de que as partes, antes de recorrer ao Poder Judiciário, deveriam demonstrar alguma disposição para o entendimento. O recém-instalado CEJUSC parecia-lhe a ferramenta ideal. Em sua visão, o princípio da inafastabilidade da jurisdição não era uma porta escancarada para qualquer desavença de vizinhos, mas uma garantia reservada às questões que realmente merecessem a solenidade da toga. Para isso, bastaria capacitar conciliadores e conscientizar advogados.


Decidiu aproximar-se da Subseção local e, com o apoio da diretoria, promoveu cursos, ministrou palestras e difundiu a cultura da conciliação. Cumpria, assim, não apenas seu dever funcional, mas também o que entendia ser sua função social.


Durante alguns meses, acreditou no êxito da empreitada. Os números das conciliações cresceram, os processos diminuíram e os advogados passaram a receber seus honorários com maior rapidez.


A fórmula deu tão certo que, aos poucos, já não havia litígios naquela comarca. E o juiz, que há muito se acostumara à cidade e ao prestígio discreto que a convivência cotidiana lhe proporcionava, acabou removido para outra, onde ninguém o conhecia e sua autoridade se dissolvia na multidão.


Foi então que percebeu uma curiosa ironia: quanto melhor exercerá o seu poder, menos necessário se tornava. Ao pacificar a comarca, reduziu a própria relevância. Restou-lhe apenas a satisfação íntima do dever cumprido, pois, como diria Machado de Assis: “nada dá maior glória ao homem do que a consciência da sua integridade moral”.