Artigo
O doutor advogado, há anos, exercitava sua sustentação oral no Tribunal de Justiça como quem cumpre um ritual solene e com muito respeito e admiração. Sapatos engraxados, beca limpa e bem passada. O orgulho estampado no rosto, o frio na barriga que não se dissipava, mesmo após horas de ensaio diante do espelho.
Mas o tempo, de tão ligeiro, resolveu mudar as regras. E mudou para pior. O modo virtual, outrora exceção, tornou-se regra. A emoção se esvaiu. A beca perdeu sua majestade. Os sapatos, outrora símbolos de respeito, tornaram-se invisíveis diante da tela.
O doutor advogado, que não era tolo, descobriu-se hábil em manejar as engenharias da inteligência artificial. E, como quem vende ilusões, ofereceu pelas redes sociais a promessa de elaborar uma sustentação oral impecável: voz e imagem do próprio advogado constituído nos autos, tudo pronto em menos de quinze minutos — o tempo permitido pelo regimento interno — e sem a necessidade de ensaios intermináveis e beca bem passada.
O sucesso foi imediato. Honorários no bolso, contas em dia e a tão sonhada viagem para Paris. Os vídeos com as sustentações orais eram perfeitos, tão perfeitos que não se poderia acusá-los de falsidade por usar um holograma digital. E se a justiça é cega, tal como dizia Machado de Assis: “sendo cega, não vê se é vista, e então não cora.” Afinal, o doutor advogado não inventava nada: apenas punha a tecnologia a serviço da advocacia.
Mas, convenhamos, sustentação oral em vídeo não é sustentação oral. É como chamar retrato de presença, ou eco de palavra. A forma pode enganar, mas o espírito não se deixa iludir. O ato de falar diante dos juízes, com o coração acelerado e a beca nos ombros, não se substitui por gravação.
E essa metamorfose — que nem mesmo Franz Kafka previu — distanciou a justiça, que trocou o calor humano pela frieza da tela e decretou que a beca e os sapatos já não tinham lugar. O advogado apenas seguiu a regra imposta, restando-lhe o vazio de perceber que a justiça, velha de guerra, já não mais clamava como outrora.
E assim, entre vídeos e áudios, o doutor advogado percebeu que já não era mais o advogado quem falava — era a máquina que emprestava sua voz e sua imagem, apenas para cumprir um papel regimental. Restava-lhe apenas assistir, como espectador de si mesmo, àquilo que um dia fora sua arte, já que, após o vídeo, não havia olhares, pedido de vista ou qualquer emoção no julgamento. E foi nesse instante que compreendeu: a justiça não havia perdido apenas a beca e os sapatos; perdera também a alma.
