Crônica Jurídica

25/07/2026
Autor: Renata Soltanovitch
Com a palavra, a defesa
Crônica jurídica

O sonho daquele doutor advogado sempre foi tornar-se Promotor de Justiça. Dedicado e estudioso, prestava concursos em todo o território nacional, onde quer que houvesse edital. Mas a aprovação nunca vinha. Por diversas vezes chegou até a prova oral, sem jamais ser nomeado.


Um dia, lendo um livro de um “guru da internet”, descobriu a recomendação de se imaginar já no cargo de promotor, pois seu problema não era falta de conhecimento, mas de mentalidade. Enquanto isso, para pagar os boletos — sobretudo as taxas dos concursos, viagens e hospedagens — trabalhava como advogado pelo convênio da OAB.


Até que, certo dia, já imerso na técnica de visualização sugerida pelo guru, em plena sustentação oral no tribunal, passou a defender a tese da vítima e pedir a condenação do próprio cliente. Não poupou argumentos jurídicos. Foi brilhante, não fosse estar do lado errado da mesa. Os desembargadores se entreolharam, e o representante do Ministério Público, estarrecido, pediu a palavra para indagar se o causídico havia sido contratado pela vítima no instante em que subia à tribuna.


Nesse momento, o advogado percebeu que, embora não conseguisse ser promotor, poderia oferecer seus serviços às vítimas ou seus familiares. Mas o pensamento durou pouco: logo veio sua destituição do cargo e o ofício expedido à OAB. E, como diria Machado de Assis: “Digam o que quiserem; o homem gosta dos grandes crimes.”