Crônica Jurídica
O juiz daquela comarca já não aguentava mais tanto processo. A cada dez que sentenciava, entravam trinta no sistema. Mal almoçava, mal dormia. O pior era ter que atender advogados e ainda presidir audiências.
Num domingo qualquer, depois de assistir a um daqueles filmes americanos em que o juiz é o herói final, teve uma ideia brilhante: usar o sistema de precedentes.
Do próprio bolso, contratou um especialista em inteligência artificial, mapeou todos os processos e passou, discretamente, a baixar seu acervo com base nos precedentes. Os poucos casos que restavam recebiam uma sentença cirúrgica, dificultando qualquer recurso de apelação.
Mas em outro domingo, após distinguir o justo do injusto com a precisão de um relojoeiro, sentou-se em sua confortável poltrona com vista para o mar. Observou o infinito e se deu conta de que o mundo jurídico era um hospício: os processos agora eram julgados por precedentes interpretados por uma máquina a seu bel-prazer, e o advogado, o único que ainda lutava por justiça. Como diria Machado de Assis: “É claro que a justiça, sendo cega, não vê se é vista, e então não cora.”
