Crônica Jurídica
O ilustre magistrado, homem de hábitos clássicos e pouco afeito às modernidades digitais, decidiu que a audiência de instrução deveria ser presencial — como manda a liturgia da Justiça. Intimou testemunhas, partes e advogados com o rigor da lei, certo de que nada escaparia ao seu olhar.
O caso parecia trivial: uma briga generalizada em academia de ginástica, seguida de pedido de indenização. Mas o espetáculo começou quando todos chegaram com documentos em mãos. O juiz, acostumado a ver nas fotos oficiais rostos envelhecidos, encontrou o contrário: ninguém parecia o mesmo. Estavam todos magros, esbeltos, afinados. Até os advogados, outrora robustos, agora lembravam discípulos de milagrosas “canetas emagrecedoras”.
Intrigado, o magistrado assistiu ao vídeo da briga e indagou, com a seriedade que lhe era peculiar, se os presentes eram, de fato, os mesmos que apareciam na filmagem — já que todos exibiam um shape digno de influenciador digital.
Foi então que o juiz, abandonando o rigor, preferiu a ironia. Elogiou a disciplina dos presentes, inclusive dos advogados, exaltou a transformação física e, num gesto inesperado, transformou a audiência em celebração. Entre sorrisos e vaidades satisfeitas, as partes decidiram se reconciliar.
O episódio correu pelos corredores do Tribunal, e logo o magistrado passou a ser requisitado como conciliador em outras demandas. Afinal, como lembraria Machado de Assis: “As coisas valem pelas ideias que nos sugerem.” E, naquele dia, a ideia de que a Justiça também pode ser leve e restauradora abriu muitas portas.
