Crônica Jurídica

19/06/2026
Autor: Renata Soltanovitch
As senhorinhas e o magistrado
Crônica jurídica

O ilustre magistrado sempre foi muito atento à defesa dos idosos — tão atento que chegava a exagerar, o que rendia inúmeras reclamações naquela pequena comarca do interior. Mas, em contrapartida, arrancava suspiros das senhorinhas, que além de achá-lo um “pão”, acreditavam que ele seria o verdadeiro herói dos vulneráveis.


Um dia, uma dessas senhorinhas, decidida a remover o padre da paróquia local, reuniu diversas frequentadoras da comunidade para ingressar com uma medida cautelar de produção de provas, que serviria de munição no processo canônico. Juntaram abaixo-assinados, declarações de pobreza para pedir justiça gratuita — afinal, todas eram aposentadas — e procurações assinadas de próprio punho, com pulsos fracos e mãos trêmulas, resultando em rubricas múltiplas e pouco convencionais.


Distribuída a ação, o juiz, acreditando naquele momento ser incompetente para decidir o pedido, estranhou as assinaturas e convocou todas as senhorinhas para uma audiência confirmatória dos documentos. Seu verdadeiro intuito, porém, era oficiar à OAB e denunciar o advogado, tanto que sequer o intimou.


A empolgação foi geral. As senhorinhas, todas de cabelos brancos, vestidos floridos, batom vermelho e bochechas rosadas de pó de arroz, perfumadas com leite de rosas, adentraram a sala daquele “broto”. O burburinho nos corredores forenses foi tanto que o advogado, mesmo não intimado, logo soube do ocorrido e apareceu com cara de deboche, acompanhado da Comissão de Direitos e Prerrogativas. Afinal, com um nome a zelar, sabia que não apenas poderia ingressar com a medida judicial, mas também tinha a acuidade de recolher procurações assinadas de próprio punho, em vez da impessoal assinatura eletrônica.


E assim, o caso ficou conhecido no Fórum como “A Inquisição das Vovozinhas”, cujo objetivo era provar que o padre não possuía a simpatia nem o acolhimento necessários para permanecer à frente daquela paróquia.


Mas, ao contrário do que esperava, quem acabou no banco da opinião pública foi o próprio magistrado. Seu exagero contra o advogado foi visto como tentativa de transformar a audiência em espetáculo para constranger o profissional, sem sequer intimá-lo.


Naquela pequena cidade, as senhorinhas, orgulhosas, voltaram para casa com a sensação de terem feito história, pois a situação acabou tendo o resultado esperado: o padre, envergonhado com o embrólio, pediu transferência de paróquia.


E se o fim justifica os meios, como diria Machado de Assis: As mulheres que são apenas mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-se; as que têm alguma coisa mais do que a debilidade feminina, lutam ou recolhem-se à dignidade do silêncio.”