Crônica Jurídica

31/07/2026
Autor: Renata Soltanovitch
A treta judicial
Crônica jurídica

Depois de anos na advocacia privada, a doutora finalmente foi aprovada no concurso para juíza. Orgulhosa de si, trazia consigo a promessa de defender as prerrogativas dos advogados, pois conhecia de perto o sofrimento da classe.


Tudo corria bem até que, um dia, foi removida para o Juizado Especial de uma grande comarca. Ali, milhares de processos se acumulavam. Embora limitados ao teto de quarenta salários mínimos, muitos eram surpreendentemente complexos.


Foi então que se deparou com trinta ações idênticas, todas envolvendo os mesmos fatos. Sua diligente serventia apensou os processos e os enviou para conclusão conjunta. Num fim de semana chuvoso, a magistrada mergulhou nas peças e descobriu, indignada, que se tratava de uma verdadeira guerra virtual: uma briga generalizada em um jogo online, onde os participantes se ofendiam mutuamente por causa da perda de prêmios oferecidos pela plataforma.


Convencida de que estava diante de uma típica lide predatória, extinguiu todos os processos, cassou os benefícios da justiça gratuita, aplicou multa solidária ao advogado e ainda oficiou à OAB. Afinal, como já dizia Machado de Assis: A causa da justiça tem enchido o estômago e inchado o espírito de muito galopim deste mundo; não como causa, mas como frase – que se adapta a todos os programas.”