Crônica Jurídica
O magistrado, recém-empossado naquela pequena cidade do interior, acumulava funções. Sentia-se feliz, mas exausto. Naquele mês, decidira realizar todas as audiências criminais, com o propósito de reduzir o acervo e encarcerar apenas aqueles que realmente mereciam.
Indignado com os crimes que assolavam a comunidade, convocou o delegado, o promotor, o padre e o chefe da polícia para discutir formas de conter a violência. “A maldade”, disse ele ao padre, “já saiu do túmulo.”
No dia seguinte, presidindo uma audiência simples de uma senhora idosa sobre infrações ao Código de Defesa do Consumidor cometidas por uma empresa de móveis planejados, a mulher percebeu o cansaço estampado no rosto do juiz. Sem hesitar, tomou uma espada-de-São-Jorge que estava ao lado da mesa e começou a benzê-lo, como se não houvesse amanhã. Afinal, como lembraria Machado de Assis: “Há coisas na vida que é mais acertado crer que desmentir; e quem não puder crer, que se cale.”
