Artigo
Após noites estudando uma tese, já estava o doutor advogado com seu trabalho pronto. Seu texto era tão inédito que usou a inteligência artificial apenas para corrigir o texto e, mais: a própria IA, talvez com ironia digna de Brás Cubas, ainda o parabenizou. Se o elogio era sincero ou programado, só mesmo o diabo das máquinas saberia.
Petição inicial pronta, assinada com o certificado digital espetado no notebook, ali constava, com a indignação de quem estudou a Constituição Federal, que aquela reforma tributária — diz o doutor em sua petição inicial — era bitributação disfarçada de modernidade. “Se assim continuar, melhor fechar a firma, dispensar os empregados e vender água de coco na praia; pelo menos teria vista para o mar”, pensou, enquanto planejava suas estratégias narrativas.
Considerando a ousadia da tese e a delicadeza dos números do seu cliente, a ação veio com pedido de segredo de justiça.
Mas, justiça seja feita, o rebuliço da petição com liminar concedida gerou publicação em rede social e trouxe uma fila de novos clientes, todos desejosos de ações engenhosas, dividendos poupados e, quem sabe, elogios automatizados. Só esqueceu o doutor advogado, perdido entre liminares e novos contratos, de avisar aos clientes que o Judiciário, esse ente quase machadiano, também já se rendera às engrenagens da inteligência artificial. Dominar o algoritmo passou a valer mais do que citar jurisprudência.
Enquanto uns ganhavam a liminar para não pagar o imposto, outros tinham que depositá-lo em juízo e a grande maioria, indeferido o pedido em primeira instância. O doutor advogado decidiu recorrer, para tentar manter uma coerência das decisões, já que se vendia uma segurança jurídica filosófica. Se nada desse resultado, ao menos seria uma boa matéria para sua próxima crônica jurídica.
