Crônica Jurídica

31/05/2026
Autor: Renata Soltanovitch
A juíza e os óculos de marca
Crônica jurídica

A doutora advogada estava orgulhosa de sua conquista com a carteira da OAB e seu certificado digital. Era sua primeira audiência, ainda presencial. Vestiu-se com estilo, colocou seu melhor tailleur e o combinou com os óculos de grau, que usava desde a adolescência.


Ao sentar-se na sala ao lado de sua cliente, percebeu que a magistrada estava mal-humorada, com expressão emburrada, mas achou que era típica da profissão — até porque os corredores gelados daquele Fórum não aqueciam o coração nem mesmo dos mais apaixonados.


No decorrer da instrução, percebeu que a juíza não parava de encará-la e acreditou ser por causa de seus óculos, que haviam sido feitos por sua amiga designer e fabricados pelos pais, que estavam com um novo negócio. Não se passaram nem cinco minutos e a magistrada pediu para ver os óculos da advogada, desconfiando que ali havia uma câmera gravando a audiência.


Fez-se silêncio na sala, mas o advogado adversário, conhecendo a boa-fé da colega e sendo membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, impediu a inspeção. Não apenas porque sabia que a advogada poderia gravar a audiência conforme autorizado pelo artigo 367, parágrafo 6º Código de Processo Civil, mas também porque a magistrada incorreu em uma grosseria desnecessária.


No final, a advogada sorriu para a juíza, entregou o cartão da empresa de seus pais e disse: — “Ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros” — como diria Machado de Assis.