Crônica Jurídica
O doutor advogado sempre foi um homem muito sério e respeitado naquela cidade do interior, inclusive pelos juízes que já haviam exercido sua jurisdição ali. Nunca faltava a nenhuma audiência. Vivia para o trabalho. No recesso forense, preferia conhecer o Brasil em vez do estrangeiro e, como diria Guimarães Rosa: “O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.” Ninguém o procurava nesse período, pois sabiam que certamente estava passeando em terras tupiniquins.
Mas, tão logo retornou de férias, a juíza o convocou para que, gentilmente, fizesse um júri bem complexo. Ela, para evitar que o acusado fosse linchado na cidade, transferiu o rapaz para outra comarca, embora o julgamento precisasse ocorrer ali. Nenhum advogado se interessava pelo caso. Contudo, conforme o artigo do Código de Ética da OAB, que impõe ao advogado o dever de não recusar patrocínio em casos de nomeação, o doutor aceitou a causa.
Levou para seu escritório os vários volumes do processo. Estudou, fez esquemas, desenhou organogramas, pesquisou sobre os possíveis jurados e se preparou para o grande dia.
Porém, inexplicavelmente, não compareceu. A juíza destituiu os jurados e achou estranha a ausência do causídico. Depois de semanas desaparecido, eis que retorna. A juíza, paciente, novamente marcou o júri.
No dia designado, ao iniciar sua fala, o doutor advogado afirmou categoricamente que havia sido abduzido por um disco voador. Descreveu em detalhes o que tinha visto e sentido: luzes intensas, seres de olhos grandes e uma sensação de suspensão no tempo.
E, para espanto geral, declarou que os extraterrestres eram testemunhas da defesa. Disse que eles poderiam provar a inocência do réu, pois haviam presenciado o crime do alto, em sua nave silenciosa. Pediu, com toda a solenidade, que fossem intimados por carta precatória intergaláctica.
Os jurados se entreolharam, alguns riram, outros ficaram sérios, sem saber se era delírio ou estratégia. A juíza, tentando manter a compostura, suspendeu a sessão e oficiou a Caixa de Assistência dos Advogados para cuidar do doutor.
E assim, naquela pequena cidade, ficou registrado nos anais da Justiça que um júri popular fora interrompido não por tumulto, não por falta de provas, mas pela inesperada tentativa de convocar alienígenas como testemunhas presenciais.
