Artigo

04/04/2026
Autor: Renata Soltanovitch
A ironia da toga
Crônica jurídica

A comarca estava em festa. O juiz, conhecido por sua grosseria e autoritarismo, havia sido afastado compulsoriamente pelo CNJ. “Rei morto, rei posto”, diria o ditado. Mas o magistrado não parecia disposto a aceitar a aposentadoria imposta.


Durante anos, ofendeu advogados, atropelou prerrogativas e colecionou desafetos. Quando tentou se inscrever na OAB, recebeu a resposta que talvez fosse a mais amarga de sua carreira: indeferimento. E, ironicamente, precisou recorrer ao mesmo ofício que tanto desprezara — contratar um advogado.


A tarefa, porém, não foi simples. Um a um, os profissionais da região recusavam a causa. Não por vingança, mas por convicção: quem tanto desdenhou da advocacia agora pedia socorro. Até que um advogado, evocando o Código de Ética, aceitou o desafio. Fez questão de lembrar: “É dever do advogado assumir a defesa criminal sem considerar sua própria opinião sobre a culpa do acusado.” E apresentou recurso. E como já dizia Machado de Assis: “A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.” Eis aí a ironia da vida: o juiz que negava direitos agora dependia daquilo que sempre tentou sufocar.