Crônica Jurídica
À primeira vista, quem cruzava com a senhorinha jurava que se tratava de uma pobre coitada. Frágil, discreta, parecia carregar nos ombros o peso da necessidade. Mas bastava a noite cair e o salão se encher de música para que ela se transformava: no baile e no bingo da terceira idade, surgia como uma senhora elegante, vestida de vaidade e cabelo arrumado.
Morava em um asilo — escolha própria — e, entre uma dança e uma cartela, precisou recorrer à Justiça. O inquilino da casa onde antes vivia havia deixado de pagar os alugueres, e ela, decidida, assinou declaração de pobreza para que o seu advogado de confiança pleiteasse a gratuidade.
A cidade, porém, era pequena. O juiz, homem de comunidade, conhecia bem aquela figura: sua própria avó residia no mesmo asilo. E, desconfiado da súbita pobreza, pediu os extratos bancários. Ali, entre débitos, revelou-se a verdade: cartelas e mais cartelas de bingo, semana após semana, consumiam parte generosa de sua renda e de sua aposentadoria, que era recochunda.
Com a frieza dos fatos, o magistrado indeferiu o pedido. E, como se quisesse dar à decisão um tom filosófico, citou Dostoiévski:
“Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, como indivíduos.”
Concedeu-lhe trinta dias para pagar as custas, sob pena de extinção do processo. A senhorinha, que no baile era rainha, descobriu que na Justiça não havia espaço para Il Ballo del Doge, como conhecia muito bem em seus tempos de juventude — apenas para a verdade nua dos extratos bancários e do Sniper do judiciário.
