Crônica Jurídica
A doutora delegada havia chegado há pouco à Comarca. Não conhecia ninguém. Seguiu direto para a delegacia onde acabara de ser empossada: seria sua primeira titularidade, o primeiro ano após a aprovação no concurso.
Logo na chegada, foi surpreendida por uma companhia inesperada: uma pequena gatinha que vivia pelas redondezas e, até então, passava despercebida por todos. Para alguém vinda do interior, acostumada ao convívio com animais, aquele afeto silencioso seria providencial naquele ambiente sombrio.
Certo dia, em plena reunião com o chefe da polícia local e os militares — todos armados até os dentes — a gatinha entrou triunfante trazendo um presente para sua nova dona: uma cobra viva. O pânico foi imediato. Os homens saltaram da mesa, armas em punho, prontos para reagir.
A delegada, porém, manteve-se serena. Reconheceu de imediato que não se tratava de uma serpente venenosa. Com calma e firmeza, demonstrando uma rara inteligência emocional, afastou o animal com a ajuda de um rodo e acionou o Corpo de Bombeiros, que devolveu a cobra à natureza.
Depois desse episódio, nunca mais os policiais ousaram duvidar da coragem da delegada. E, como diria Machado de Assis: “Não há repartição pública que não tenha mexeriqueiros.”
