Artigo
Era uma sexta-feira bem tranquila, e o advogado — que havia prometido à esposa que passaria o feriado na casa de praia — estava em seu carro rumo ao litoral, quando uma cliente das antigas insistiu em ligar para seu celular particular.
Depois de muita insistência e da esposa reclamando que o celular não parava de tocar, ele decidiu atender. A cliente, uma senhorinha de alguns bons anos de guerra, informou que precisava urgentemente lhe falar.
Resolveram, então, combinar um café, já que ficava no caminho da praia e da casa da cliente, em uma cafeteria próxima. Embora a esposa tenha ficado aborrecida, sabia que a senhorinha era uma boa pessoa e aceitou a decisão — não de muito bom grado.
A senhora havia sido intimada para depor naquele dia na delegacia de polícia e queria muito ser ouvida, pois estava sendo acusada de curandeirismo. A suposta vítima, sofrendo por amor, havia reclamado ao delegado que, mesmo pagando a ela alguns bons reais e entregando vários objetos de valor, ainda continuava sofrendo.
Segundo a denúncia, a senhorinha, aproveitando-se da fragilidade da vítima pela dor de cotovelo, ofereceu práticas de cunho sobrenatural para purificação. Joias e objetos de valor — presentes do antigo namorado — foram embrulhados sob a promessa de que seriam queimados durante a cerimônia. Mas, segundo a vítima, foram vendidos sem seu conhecimento.
Mesmo após os rituais, a dor persistia — e a vítima acreditava ter sido enganada.
Após ouvir a história, o advogado achou engraçado, mas disse que não poderia ajudar, pois não era especialista na área criminal. Se desejasse, poderia indicar outro colega.
A senhorinha suspirou fundo, mexeu no café com calma e agradeceu a gentileza, levando consigo o número de um advogado criminalista.
O doutor saiu da cafeteria rindo sozinho, e a esposa, já mais calma, encerrou o assunto com a frase de Machado de Assis: “Se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o gênero humano.”
Com a conversa encerrada e o humor restaurado, seguiram viagem com a certeza de que o litoral prometia menos drama que o tribunal dos apaixonados.
