Crônica Jurídica
Havia meses que o oficial de justiça tentava citar o famoso médico para responder à ação de reconhecimento de paternidade, cumulada com pensão alimentícia, mas não havia jeito. Ou o médico estava gravando para o seu canal, ou então atendendo suas pacientes, ou ainda em cirurgia para o tal “lifting facial”. Mas a doutora advogada, esperta, decidiu agir diferente e marcou uma consulta com o tal médico blogueiro. Consulta cara, é verdade, mas tratava-se de um médico de famosos e, de qualquer forma, era preciso resolver esse processo. A advogada agendou e pagou a consulta, quase um salário mínimo, mas necessária, e lá foi acompanhada do oficial de justiça. Depois dos exames de praxe e da recomendação para alguns procedimentos — que incluíam botox e estimulador de colágeno —, o oficial de justiça conseguiu finalmente citar o médico na referida ação judicial. A verdade é que nem precisava de exame de DNA, pois o bebê, cuja mãe pedia o exame para reconhecimento da paternidade, era “cuspido e escarrado” a cara do pai, como diz o ditado popular. Enquanto a doutora advogada saía satisfeita da consulta e da citação, percebeu como sua profissão estava desvalorizada, pois, por mais que tentasse cobrar consulta pela Tabela da OAB, não conseguia conquistar clientes que lhe rendessem tantos dígitos assim. Missão cumprida, pensou na frase de Machado de Assis: “ Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria ”.
